segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 9

 
 
 
 
9.
 
Num leilão de arte japonesa e coreana, realizado pela Christie’s em Nova Iorque, em 17 de Março de 2009, A Grande Onda (Lote 63) foi arrematada por 68.000 dólares, para uma estimativa inicial situada entre os 15.000 e os 20.000 dólares (aqui).

Exemplar leiloado pela Christie's em 2009, detalhe.


 
        Este exemplar da obra de Hokusai reveste-se de grande qualidade quanto à conservação e à qualidade da impressão, ainda que, comparado com o «padrão» definido pela xilogravura da Colecção Havemeyer do Metropolitan Museum of Art, o cinzento-escuro do fundo se apresente demasiado carregado e enegrecido, sobretudo no campo direito da imagem.
 
Antes disso, em 2002 e em 2003 a Sotheby’s leiloou a colecção de Huguette Bérès, antiquária francesa que em 1951 abriu a sua galeria no Quai Voltaire, especializada em arte japonesa e nas vanguardas artísticas dos séculos XIX e XX (e agora dirigida pela sua filha, Anisabelle Berés-Montanari). Ao longo de décadas, Huguette Bérès, falecida em 1999, reuniu uma das mais importantes colecções privadas de estampas japonesas oitocentistas, porventura a última das grandes colecções «clássicas» de arte o Japão.
 
Sendo comparado ao histórico leilão da colecção do joalheiro francês Henri Vever (1854-1942), que teve lugar na Sotheby’s de Londres em 1974, o leilão da primeira parte da colecção Bérès, realizado em Paris em 27 de Novembro de 2002, ascendeu a um total de 4.926.815 de euros, sendo o valor mais alto – 1.490.750  e euros– sido pago pela série completa das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji (onde se integra A Grande Onda), segundo informou o The New York Times na sua edição de 30 de Novembro desse ano, numa notícia expressivamente intitulada «Paris Auctions; Beres collection sale brings an era to an end». De acordo com esse jornal, fontes bem informadas referiram que a licitação foi feita por um comprador japonês.
 
A segunda parte do leilão, realizada em 25 de Novembro de 2003, continha alguns outros trabalhos de Hokusai, com valores estimados entre os 12.000 e os 70.000 dólares, de acordo com a informação do artdaily.org
 
         Quando foi produzida e comercializada em 1831-32, A Grande Onda custava 20 mon, o equivalente a duas tijelas de noodles soba num restaurante. Poucos anos depois, uma carta de 1838 indica que o preço subira ligeiramente, para cerca de 32-48 mon, ou seja, cerca de quatro a cinco doses de noodles soba.
 
 
 
 
 
 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 


Natureza-morta.

 
 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo
 

 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo
 
 

Natureza-morta.

  
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Natureza-morta.

 
 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo


 

Natureza-morta.

 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo

 

Natureza-morta.

 
 
Museu de História Natural, Milão
Fotografia de António Araújo
 
 

As Flores do Imperador | Museu Calouste Gulbenkian

 
 

 
 
 
Talvez a exposição do ano em Lisboa.
 
Talvez se fale muito dela aqui no Malomil, se tiverem interesse e gosto nisso.
 
 
 

Notas sobre A Grande Onda - 8

 

 
8.
 
         É um lugar-comum dizer-se que o Japão e a voga do japonisme marcaram profundamente a vida cultural francesa, e não só, de finais do século XIX e princípios do século XX, ao ponto de, em Outubro de 1979, ao falar em Paris na sessão de encerramento do colóquio «Les études japonais en France», Claude Lévi-Strauss ter aludido, e justamente a propósito das estampas nipónicas, às «banalidades a respeito dos Goncourt e dos impressionistas», numa referência ao interesse de Edmond de Goncourt e de Claude Monet, entre outros, pela arte dos «mundos flutuantes» e, em particular, de Hokusai (cf. Claude Lévi-Strauss, A Outra Face da Lua. Escritos sobre o Japão, tradução portuguesa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, pág. 85).
 
         Na Biblioteca Nacional de França existe um exemplar de A Grande Onda, podendo até percorrer-se o álbum completo Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, disponibilizado em formato digital. Existe edição em formato papel, promovida por Jocelyn Bouquillard (Hokusai. Les trente-six vues du Mont Fuji, Éditions du Seuil-Bibliothèque Nationale de France).
 
         O exemplar existente na Biblioteca Nacional de França, descrito aqui, foi adquirido em 1888 (ou seja, antes dos existentes no Museu Britânico e no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque) e proveio da colecção de Samuel Bing (aqui e aqui), comerciante de arte, crítico e mecenas francês de origem alemã, nascido em Hamburgo em 1838 e falecido em Vaucresson em 1905. Sendo um dos principais difusores do japonisme, Bing editou uma revista, Le Japon artistique. Document d’art et d’industrie, lida por Gustav Klimt, entre outros, e da qual foram publicados 35 números entre 1888 e 1891, tendo por director Charles Gillot (1853-1903).
 
         A multiplicidade de nomes é um dos muitos mistérios da xilogravura de Hokusai.
 
A Biblioteca Nacional de França refere cinco designações em francês: L'arc de la vague au large de Kanagawa; La grande vague; Sous la grande vague au large de Kanagawa; Sous la vague, au large de Kanagawa; La vague.  
 
         A xilogravura da Biblioteca Nacional de França, à semelhança das demais, tem uma dimensão 26,3 x 38,8 cm e encontra-se impressa em papel de amoreira, formato ōban yokoe.
 
         Neste exemplar, e também à semelhança do que ocorre na generalidade das estampas conhecidas de A Grande Onda, existem falhas de impressão, lacunas, como a flagrante interrupção do contorno da onda situada no lado direito da imagem.
 





       Curiosamente, nas reproduções disponibilizadas na Internet da xilogravura da Biblioteca Nacional de França existem claras discrepâncias quanto ao brilho da imagem, tudo indiciando que a mais fiel ao original é a menos brilhante, em tons esmaecidos, onde se esfumou o perfil da nuvem no horizonte sujo.  
 

 

 
 
 
         A gravura de Hokusai, produzida em massa para o grande público, numa impressão de baixo custo, não utilizava o papel hōsho (ou «Japão imperial»), mas com o passar dos anos, ou mesmo desde a sua génese, não denotava qualquer atracção pelo brilho, já que, como escreveu Junichirō Tanizaki em Elogio da Sombra, «observar um objecto reluzente transmite-nos um certo mal-estar», acrescentando, sobre os japoneses : «não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados». Diz ainda Tanizaki que «os raios luminosos parecem ressaltar na superfície do papel do Ocidente, enquanto a do hōsho ou do papel da Chin,a semelhante à superfície coberta de penugem da primeira neve, os absorve suavemente.»
 
         Neste sentido, a gravura esmaecida pelo «lustro da mão», na expressão chinesa, ou pela «usura», no dizer nipónico, é a que se aproxima mais da alma japonesa – se é que A Grande Onda se pode considerar sequer um reflexo da alma japonesa (aquilo a que Wenceslau de Moraes chamou o enigma moral  do povo japonês), ainda que pálido e sujo, delido pela usura do tempo.


 
 
 
 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Vida ou Teatro?

 


























 
 
Se fosse viva, Charlotte Salomon teria cem anos. Mas não tem, nem está viva. Aos 22 anos, fugiu de Berlim para a casa dos seus avós, no Sul de França. Com o eclodir da 2ª Guerra, a sua avó suicidou-se. Para evitar enlouquecer (ou, ao invés, mergulhando nos abismos da loucura negra), Charlotte pintou, pintou furiosamente centenas de guaches, recriando a sua vida como se fosse uma peça de teatro em forma de pintura. Chamou-lhe Vida ou Teatro? O seu pai descobriu os guaches depois da 2ª Guerra. Charlotte tinha sido entretanto enviada para Auschwitz. Onde morreu. Agora, em Amesterdão, o Museu Judaico exibe pela primeira vez a colecção completa de guaches de Charlotte (que pode ser vista aqui). Oitocentos guaches. Todo o mundo é um palco, talvez. O pano caiu sobre a existência de Charlotte Solomon tinha esta apenas 22 anos. Vida, teatro, morte?
 
 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 7

 
 
 

 
         7.
 
        Além do exemplar do pintor Charles Shannon, o Museu Britânico possui um outro, adquirido em 1906, outrora pertencente ao escritor e jornalista Arthur Morrison (1863-1945). Trata-se da cópia mais antiga de A Grande Onda que o British Museum tem no seu acervo.

 
         Em 2008, com o apoio do Art Fund, o Museu Britânico pôde adquirir a sua terceira cópia da obra de Hokusai, um exemplar de grande qualidade, que integrava a colecção de René Druart (1888-1961), homem de letras, membro da Academia de Reims, conservador do musée du Vieux Reims e gerente da sociedade Duarte et Cie., de Reims.

 
         A qualidade desta cópia de A Grande Onda, descrita aqui, é facilmente perceptível a olho nu, sobretudo quando comparada com as que o Museu Britânico possuía desde 1906 (ex-Morrison) e 1937 (ex-Shannon).
 
 

Museu Britânico, impressão «ex-Druart», 2008, 3008.1. JA 
Museu Britânico, impressão «ex-Morrison», 1906, 1220, 0.533 (B127)
 
Impressão «ex-Morrison», com as falhas assinaladas

Museu Britânico, «impressão ex-Shannon», 1937, 0710, 0.149
 
Impressão «ex-Shannon» com as falhas assinaladas


 
       A «ex-Druart impression» foi exibida duas vezes nas Mitsubishi Corporation Galleries do British Museum e incluída pelo director, Neil MacGregor, na série radiofónica A History of the World in 100 Objects, emitida em 2010, a partir da qual foi publicado o livro Uma História do Mundo em 100 Objetos (tradução portuguesa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, 2014).
 
      Em 2008, ano em que o Museu Britânico adquiriu a «ex-Druart Impression», Nakata Hiroshi, um velho mestre do Instituto Adachi de Xilogravuras, de Tóquio, deslocou-se a Londres, onde elaborou, perante uma audiência, uma reprodução contemporânea da grande onda de Hokusai. É possível adquirir uma impressão, porventura demasiado perfeita, de A Grande Onda na página na Internet do Instituto Adachi, aqui, por cerca de 13.000 ienes (cerca de 100 euros).

 
Reprodução contemporânea feita no Instituto Adashi, Tóquio

 
Em Hokusai's Great Wave (parcialmente disponível aqui), Timothy Clark, director das colecções japonesas do Museu Britânico e um dos maiores especialistas na arte de Hokusai, refere que foram detectados vinte estádios de degradação das xilogravuras japonesas e, em particular, nos diversos exemplares conhecidos de A Grande Onda. Esse trabalho de pesquisa foi levado a cabo por Roger Keyes (e Peter Morse), no monumental catálogo raisonné da obra de Katshushika Hokusai, composto por noventa volumes dactilografados, redigidos entre 1984 e 2006 e que, por razões compreensíveis, nunca foram publicados, encontrando-se depositados na biblioteca da Freer-Sackler Gallery do Smithsonian Institution, em Washington, DC. (https://library.si.edu/libraries/freer-sackler)
 
A impressão «ex-Druart» é considerada de maior qualidade do que a impressão «ex-Morrison», não tendo aquelas que são consideradas as duas falhas mais correntes nos blocos de cerejeira com que, ao longo dos tempos, foi sendo reproduzida A Grande Onda, uma ligeira interrupção na linha de contorno no cume do Monte Fuji e, por outro lado, uma interrupção mais visível na onda do lado direito da gravura, a qual serve de contraponto à vaga monstruosa (ou monstro em forma de vaga?) que desaba sobre nós a partir do lado esquerdo.


   Ainda assim, a impressão «ex-Druart» apresenta alguns defeitos, estando esbatidos o amarelo dos barcos e o delicado rosa das nuvens ao fundo.


    Talvez cheguemos à conclusão borgesiana de que o exemplar perfeito de A Grande Onda é aquele que já não existe –  se algum dia chegou a existir sequer.